|
A mulher quer ser desejada. O homem quer o orgasmo. A plenitude não existe.
Que homens e mulheres pensam diferente qualquer um sabe. Além de diferenças na estrutura cerebral, contribuem a educação, padrões de comportamento e valores ligados às diferentes culturas onde se desenvolvem. Assim, também sãos diferentes seus desejos e fantasias.
Fantasiar é um ato comum e corriqueiro na vida das pessoas normais e que faz muito bem para a saúde mental. A fantasia é um processo psíquico no qual a pessoa cria situações mentais que satisfazem as suas necessidades e desejos, que não podem ser satisfeitos na vida real. É um processo deformado da realização dos desejos, na grande maioria das vezes inconscientes, representado por ações defensivas. Em outras palavras, é um mecanismo que você dispara, muitas vezes sem perceber, com o objetivo de substituir situações dolorosas, desejos proibidos e fatos reais angustiantes, por ilusões. Na fantasia você busca um conforto ilusório, cria um mundo mental imaginário só seu, onde suas dificuldades e seus problemas desaparecem, quando suas angustias e ansiedades são acalmadas, os desejos saciados. Você vivencia ilusões como válvulas de escape para poupar as dores momentâneas. É por isto que costumo afirmar que vivemos fugindo da realidade, mas neste caso uma fuga para o bem.
Os seus problemas podem ser a imensa repressão dos mais puros e naturais desejos, sofrida desde a mais tenra infância, conscientes e inconscientes, as situações traumáticas, as fobias, as frustrações, decepções, enfim, todo o arcabouço de dificuldades e obstáculos que prejudica sua vida. Ainda as obrigações cotidianas, exigências sociais e amarras sociais ou arquétipos, os conflitos originados das suas crenças, as agruras, raivas e culpas enfrentadas e o stress resultante que podem representar riscos desestruturantes para a sua mente.
A repressão é o ato que faz desaparecer da consciência os impulsos ameaçadores para a sociedade, sentimentos, desejos e vontades considerados desagradáveis, inoportunos e perigosos. Os recalques são modalidades da repressão, quando barram ideias, afetos ou necessidades grupais, que mais ocorrem na chamada idade da frustração, dos catorze aos dezoito anos, e que deixam marcas profundas para o resto da vida.
Um de meus mestres afirmava que toda repressão, de uma forma ou de outra, por bem ou por mal, um dia terá que ser expelida. E embora a única riqueza natural que possuímos é a vida, a maioria das pessoas vive superficialmente sem melhorá-la, apenas para gastá-la. É lamentável que cultivamos o hábito de deixar passar, as vezes com grande sofrimento pessoal. Primeiro passamos a vida dizendo que é muito cedo e depois, que é muito tarde.
Há tipos de fantasias perturbadoras, pelo menos para mim, como a do estupro, quando as mulheres têm a vontade oculta de sofrer a violência e fantasiam ser submetidas pela força. Outra é a dos fetiches fantasiados na maioria por homens, que sentem atração física por partes do corpo da parceira ou de objeto que o represente, crê-se que devido a sentimento de culpa, de inferioridade sexual e medo de falhar. Outro é o da infidelidade platônica, muito comum, que vincula o cônjuge ao encantamento com uma outra pessoa, real ou não, que nada tem de concreto, apenas energia sexual, que pode durar anos. Entretanto, cabe somente a você escolher a sua fantasia, e tambem a você escolher o que estravasar, não importando qual tipo deverá oferecer o prazer.
Jamais a realidade vai satisfazer a sua fantasia, mas a fantasia pode satisfazer a sua realidade, assim como a boa propaganda nossa de cada dia, que contribui para nos permitir a sensação de viver uma outra vida.
Temos que tomar cuidado, porque estamos ainda no limiar da nossa evolução, e logo o nosso organismo tende a repetir indefinidamente o que experimentamos como agradável e prazeroso. E excesso nenhum é salutar.
Portanto, embora saudáveis para a mente, as compensações conquistadas com a fantasia podem se tornar um transtorno, quando você as utiliza em demasia. Perdendo seu controle você pode começar a confundir o real com o imaginário, por se convencer que são verdadeiras.
E acabar com um punhado de cartelas de comprimidos de faixa preta, perdido no mundo, se preparando para um hospício, e derradeiramente com os olhos voltados para o chão. |